Seis horas. Meu corpo exige a introdução de remédios para que meu coração não venha a falhar. Os comprimidos avermelhados sob a prateleira auxiliam meu sangue a percorrer todo meu corpo em tempo reduzido. Apesar do pequeno desfalque com a lucidez, é perceptível que o objetivo da medicação é inibir minhas ações e fazer com que minhas noites de insônia tenham fim.
Não encontrei tratamento adequado para minha própria aceitação. Deixei com que as impurezas do passado obstruíssem algumas veias livres que ainda restavam. A cada milímetro em meu corpo, uma dor quase que insuportável. Com incontáveis garrafas de álcool, comemoro 20 anos.
Uma leve dormência nas pontas dos dedos das mãos indica, à minha mente, sinais de vitalidade. Porém, em contradição à ilusão, meu útero retira o “alívio” da bebida alcoólica e traz à face lágrimas que condenam meu passado indesejado.
A complexidade da minha mente desenvolveu sentimentos maternos que, outrora, fui pressionada a ocultar. Desenvolvi um amor pela vida que estava sendo gerada em meu interior, porém o individuo que introduziu minha profana decaída havia abusado inteiramente de meu corpo.
Jamais tive a intenção de interromper uma vida, iniciada ou não. Condeno-me pela dor e pela crença devido ao ato que cometi. (Sim, eu abortei) E isso aparece estampado em meu corpo. A confusão de minhas essências surge com os olhares alheios que deixam transparecer os reais pensamentos em relação a uma vida que nem os pertencem.
No decorrer de muitos anos, sustentei-me a base de histórias fictícias. Mas de que adianta enganar a mente sendo que o coração é o dono da verdade? Me perdi em meio aos meus pensamentos e só agora notei o resultado drástico do decorrer do tempo, pois meu corpo perdeu a cor, meus lábios deixaram de ser rosados e meus olhos afogaram-se em lágrimas. Cada pedaço de mim desejava dilacerar ao nascer de cada dia.
2005. Último suspiro carnal e decreto liberdade a cinco anos de sofrimento. Minha passagem desta vida para outra fez com que meus atos estúpidos ficassem em terra, (enterrados). Hoje, com certo grau de conhecimento pós carnal, vejo que a futilidade me estragou.
Busco resquícios da “pequena vida”. Em meu útero, seus traços já eram definidos, afinal tinha 4 meses. Sei que ela não entenderá palavras, mas espero que sinta meu abraço e meu carinho como um pedido de desculpas por ter tirado-lhe a vida. Somente assim irei descansar em paz.
3 comentários:
Oi Camila!!!!
Te sigo no Twitter e hoje visitei seu Blog.. a-meeeeiii!!!!!
Parabéns pelos posts, são todos muito bons!
Cláudia
@claudiamiguel
Densa,intensa e muito muito GENTE com tudo que se encerra em ser.
grata pela visita e gentileza das palavras.
carinho
eu amo teus textos, amo teu jeito de mostrar que na ficção - ou não - também há vida, também há sentimento.
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