Anjo, preciso conversar.
Vazio. Minha mente, agora infértil, é descartada de qualquer possibilidade de uso. “O outro domina a vida que costumava ser minha”, assenti. Não tenho forças, não tenho vontades. Além do mais, não tenho mais motivos para manter-me viva.
Sentimentos deixaram-me exposta ao mal. Minha emoções, desperdiçadas. Relutei contra alguém que eu não distinguia ao certo a identidade. Será que era alguma alma ou será meu ectoplasma que ainda não se acostumou com meu corpo, repelindo-se constantemente?
Oh, vida. Volte por favor. Preciso de você. Preciso de você agora. Eu não sabia o que era valor. Talvez ainda não saiba. Por favor, permita-me ter uma segunda chance? Eu PRECISO viver. Preciso voltar à vida. Voltar.
Estou no ápice da loucura. Falo comigo. Falo com ele. Falo com ela. Falo com o sangue. Falo com meu ectoplasma. Falo. Falo sem parar, sem êxito. Ei, você! Me liberte! Livre-me do peso, livre-me do mal; livre-me do meu velho recente eu.
Quem é você com quem eu falo afinal? Posso chamar-lhe de Anjo? Permita-me. Eu imploro. Assim como imploro para que me compreenda, me estude e me ajude. Reconheço que preciso de ajuda. Uma parte consciente de mim, pelo menos.
De mim? Do outro? Já não sei que personalidade se apresenta à frente. Anjo, me salve. Ora sou ela. Ora sou ele. Ora somos dois. Assumo papéis, sei atuar. Céus, o que estou falando? Estou delirando a cada segundo de vida. Respiro. É, preciso sentir o ar circular em meu interior. Ar. Graças! Tenho ar.
Anjo, já não sei a que plano pertenço. Estou viva? Meu corpo, ainda pertence à terra? Nossa conexão ainda me pertence? Dúvidas. Duvido de mim. Estou repleto de perguntas que o silêncio insiste em não responder.
Quero me libertar desse peso, desse encosto, desse outro em mim. EU QUERO VALORIZAR O QUE É MEU. Mais do que nunca, quero a mim, neste corpo, para dar formas às minhas novas escolhas. Decido agora RECOMEÇAR.
Minha fraqueza se fez maior do que minha força de vontade. Queria dominar a mim, mas fui dominado por uma alma que vagava por aí e esbarrou na matéria vazia na qual uma parte de minha alma habitava.
Embora eu queira fazer da mentira a verdade, no fundo do peito eu entendo que sou a culpado pelo o que aconteceu comigo. Desisti sem antes tentar; relutar. Eu fracassei. Fracassei da pior maneira possível. Mas agora aprendi. Posso me apresentar à você com um “eu” modificado, Anjo?
AH! O mal que habitava em mim não vinha de nenhum espírito afinal, mas sim do próprio inferno que criei. Montei minha sentença e, ao fim do espetáculo, me suicidei.
Tudo o que vivi não passou de um pesadelo diante dos meus olhos. Escondia-me atrás de personalidades para ganhar um olhar diferente de alguém. Compreendo agora que “tudo tem seu dia e sua hora”. Pois bem, a minha chegou. Meus heterônimos irão se desfazer, assim como meu passado.
Anjo, agora serei só eu. Terei todos os meus sentimentos sobre meu domínio. Eu, exclusivamente. Precisava desabafar. Ainda bem que posso contar sempre com você.
Você não me julga, mesmo que eu seja multifacetado. Seja não; era multifacetado. Apaguei meu passado. Minha história começa agora, com esperança, força e fé. Valor e amor são fortes e essenciais para mim; caminhos pelos quais decidi por onde (re)começar a vida que é MINHA.
Com devoção,
Eu.
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