domingo, 27 de março de 2011

Uma lição de Fé

Fé  

Meus olhos parecem viver em águas. Sinto meu coração sair pela boca todos os dias pela manhã. Só de pensar que tenho 24 horas a mais para viver é agoniante. A cada segundo, uma nova tragédia. É triste. Definitivamente triste.

Não tenho motivações e nem sonhos. Os abalos naturais sobre minha terra abalaram (e criaram) profundas ruinas em mim. Fui dominada pelo fracasso do homem, e com isso, trouxe às minhas costas o peso de toda a humanidade.

Sou jovem. Tenho 17 anos. Leio livros e acredito no contos. Conforto-me com a ilusão. Eu queria poder viver as histórias do Sidney Sheldon ou ainda seguir o rumo do “Último Bailarino de Mao”, segundo Li Cunxin. Ah, quem me dera poder viver como os personagens deles. Quem me dera!

Meu Japão, minha terra castigada.Terra esquecida pelo resto do mundo e abandonada pela fé. Fé, há tempos não professava a minha. Não era um costume familiar, minha mãe proibia crenças que não fossem orientais. Eu não gostava, preferia o costume ocidental trazido pelo meu pai. A minha crença, eu mantinha viva.

Vieram as ondas, os ventos e as terras. Estou certa de que logo o fogo virá e levará o que restou nessa cidade. Pouca família; poucos indivíduos. Não sei números exatos. Neste país, a comunicação está impossível.

Tento manter pelo menos o amor dentro de mim, embora seja extremamente difícil. “O que os olhos não veem, o coração não sente”. Ditado que já não é tido como certo. É possível sentir os tremores e as chuvas. Posso manter meus olhos fechados por alguns segundos. É o máximo que consigo, pois meu peito arde e entro em desespero.

Gostaria que as coisas fossem diferentes. Porém, compreendo que tudo o que acontece é em resposta ao que o homem tem feito constantemente à natureza. Destruição de um lado; destruição em resposta do outro. “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”.

Deus! Como eu queria poder mudar o rumo disso tudo! Sou incapaz agora. Eu preciso muito de ajuda. De um consolo, talvez. Em casa, não consigo conversar. Minha mãe está em estado de choque. Chora o tempo todo e seu corpo parece explodir a cada momento. Minha irmã grita desesperadamente. Chama o nome de meu pai o dia inteiro. Ela sente falta dele. (Confesso, eu também).

Ele foi levado pelas ondas que invadiram a cidade. No dia do acontecimento, minha irmã estava em nossa casa, brincando de “esconde-esconde” com o pai. Muito esperta, saiu de casa e se escondeu nas ruínas de uma igreja no topo da montanha perto de casa. Ficava ansiosa para ouvi-lo exclamar lá de baixo: “Estou indo, meu bem”. Mas nunca ouviu.

Foi a última vez que brincou com alguém. Atualmente, tornou-se uma criança séria, sem expectativas de vivenciar novamente a felicidade. Sente um arrependimento muito grande pelo o que aconteceu. Mesmo que não tenha sido culpa dela, sente que não deveria ter abandonado a casa e deixado o pai sozinho no quintal. Talvez, se tivesse ficado lá, poderia ainda abraçá-lo mais uma vez. A história das águas e do pai irá atormentá-la para sempre enquanto viver.

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